quinta-feira, maio 17, 2012

Histórias de outras pessoas (I)


Hoje, enquanto aguardava a minha vez, solitária na sala, uma senhora abordou-me. Eu sei que tenho uma cara de quem não consegue ignorar os outros porque acontece sempre o mesmo: levo o meu livro e se calho a conseguir abri-lo não consigo sequer terminar a primeira frase porque há sempre uma pessoa com mais de 50 anos que toma a minha atenção como refém e quase como assolada por um síndrome de Estocolmo acabo por me afeiçoar às suas histórias e ao que têm para me contar.

E hoje esta senhora começou por me dizer que não gostava do nº da sua senha. Era o 13. Mas que era o número favorito do filho dela. O filho dela já tem 39 anos, está desempregado e em risco de perder a casa. 

Ela fala pausadamente da sua história mas sem me dar tempo suficiente para fazer mais que um aceno de cabeça em sinal de concordância. Tem uma cara simpática e fala baixinho. É uma pessoa que parece ser feliz, ou pelo menos não pensar que não o é.

Esta senhora aproveita enquanto ponho creme nas mãos para me perguntar que creme é. Ela comprou um da Avon, muito caro mas que não faz nada. Ela trabalha nos jardins de uma embaixada. Trabalho pesado - penso eu - para uma senhora com 67 anos, tratar das limpezas dos jardins, casa dos cães, arrecadações e garagens. As suas mãos testemunham as agressões às quais ninguém deveria estar sujeito mas não gosta de usar luvas, não se ajeita. 

Esta senhora trabalhou o seu tempo, reformou-se há um ano. Mas precisa trabalhar para ajudar o filho que está desempregado e em risco de perder a casa. 

Entretanto confidencia-me. Tem um tumor benigno no peito. Há 4 anos foi operada a um tumor benigno na barriga. É de família, conta ela. Toda a gente a família tem tumores benignos. 

E mantém o seu sorriso na cara. 

1 comentário:

pensamentosametro disse...

Vês pequenina, há sempre quem mantenha o sorriso apesar dos 'tumores benignos' que a vida lhe vai apresentando.

Bjos


T